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As cinco lições de Luis Lobão para a transformação digital

Publicado em: 24/09/2020

As cinco lições de Luis Lobão para a transformação digital

Autor de ‘A Jornada da Transformação Digital: Um guia prático’, o professor de estratégia e governança da HSM Educação Corporativa reflete sobre os atributos fundamentais da inovação e os benefícios para o setor da Saúde

Por Rodrigo Guerra*

Luis Lobão é engenheiro de formação, mas se tornou conhecido principalmente pelas aulas e palestras sobre gestão, estratégia e governança. Ele é professor da HSM Educação Corporativa e sócio fundador da Partnership & Associados. Recentemente se debruçou sobre o tema da transformação digital e seus impactos não só sobre o futuro das organizações, mas também sobre sua gestão e estratégia.

Desses estudos nasceu o livro A Jornada da Transformação Digital: Um guia prático (editora Lamônica), cujo lançamento ocorreu no dia 20 de setembro, e que está erigido sobre cinco grandes princípios: o uso de ativos tecnológicos depende de mudanças de mindset e cultura; acessibilidade da tecnologia, redução das barreiras de entrada e aumento da competição; mudança de um modelo baseado em planejamento prévio para um baseado em flexibilidade e aprendizado; necessidade de líderes que concedam autonomia e agilidade; e solução de problemas sempre com base nas necessidades dos clientes.

Foi ele próprio quem resumiu as mais de 900 páginas do livro nesses cinco grandes pilares durante o bate-papo virtual que tivemos recentemente como parte da série “Conversa de Inovação”. Discutimos também os impactos dessa transformação sobre o setor da Saúde, e ainda sobre como ela pode alterar drasticamente alguns paradigmas defasados que o setor insiste em perpetuar.

Leia abaixo os melhores momentos da conversa:

Rodrigo Guerra: Para começarmos, gostaria que você definisse inovação.

Luis Lobão: Inovação verdadeira é aquela que impacta o modelo de negócios. Existe a [inovação] de produto, a do modelo de gestão, etc., mas quando se muda o modelo de negócios é que realmente se ganha em competitividade. Sendo bem simplista: é aquilo que traz dinheiro novo para a empresa, que constrói um posicionamento, uma margem de contribuição e agrega valor ao negócio.

 Rodrigo: Seu novo livro [“A Jornada da Transformação Digital: Um guia prático”, editora Lamônica] vai ser lançado agora em setembro, certo? Quais as maiores lições que ele traz?

Lobão: São cinco princípios. O primeiro é o uso dos ativos tecnológicos para tornar as empresas mais competitivas e produtivas, mas que sem a mudança de mindset acaba obtendo resultados pífios. Uma empresa precisa estar preparada para receber as tecnologias, mas a transformação digital é muito mais que isso e inclui mindset e cultura organizacional. O segundo é que a tecnologia se tornou mais acessível, reduzindo as barreiras e facilitando a entrada de concorrentes. A comoditização da tecnologia joga as barreiras de entrada no chão e cria uma hipercompetição. O terceiro aprendizado é sobre esse tal mundo VUCA [sigla em inglês para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade], que não vou entrar em detalhes, mas que joga por terra a ideia de planejamento pré-concebido. Menos planejar e mais estar preparado para responder. Sai de cena o modelo de estratégia como processo e entra o aprendizado estratégico. Muda a direção do planejamento estratégico: não é mais do passado para o futuro, mas do futuro para o presente. O quarto é essa necessidade de um líder novo que não define metas e orçamentos, mas sim dá autonomia e lidera a equipe para um processo mais ágil e flexível. Tudo aquilo que está no framework da agilidade passa a ser importante. É uma transformação ágil da organização. E o quinto ponto de aprendizado tem como origem estar centrado no cliente. Aquilo que estamos chamando de vision cards, as cartas da visão, que a partir de pontos de solução de problemas para os clientes se constrói uma estratégia de mercado.

 Rodrigo: Durante o processo de escrita, chamou sua atenção algum caso ou aplicação em Saúde?

Lobão: Não há nenhum caso do setor de Saúde [no livro], uma falha nossa. O que tenho visto, principalmente por meio da Singularity University, em que uma das verticais é a da Saúde, é a aplicação de inteligência artificial, seja em exames de imagem ou diagnóstico de autismo, por exemplo. E outras ferramentas de processamento de dados obtidos pelo uso intensivo de wearables, que de certa forma vão revolucionar o setor. Daqui a pouco conseguiremos usar genotipagem e dados de wearables para precificar planos de saúde ou detectar riscos de sinistros.

 Rodrigo: Ou traçar uma linha de cuidado mais adequada para cada paciente. A barreira não é mais a tecnologia ou a adaptação das pessoas. Para mim, são os players, não só operadoras, mas também hospitais e laboratórios, que precisam desenvolver inteligência para tirar valor desses dados, porque não é algo trivial. Está fora do modus operandi da prestação de assistência no Brasil.

Lobão: Ciência e gestão andaram separados no mundo inteiro. E pela primeira vez as vemos conectadas. Nas empresas não temos pessoas com a cabeça da ciência. Dificilmente um gestor entende a diferença entre big data, data science e data mining. Enchem a boca para falar de BI [Business Intelligence] mas ninguém usa para tomar uma decisão. Não há cultura de dados nem entendimento de que eles vão fazer diferença para as organizações. Nos trabalhos de mentoria que faço com CEOs, tenho mandado eles lerem sobre dados.

 Rodrigo: De que inovação a Saúde mais precisa hoje?

Lobão: A receita não é tão simples. Tem que se fazer um bom diagnóstico, traçar um projeto de desenvolvimento organizacional, trazer ecossistemas de inovação para capacitar a empresa, mexer nos processos. Isso é a base da transformação, mas não há receita única. Cada jornada é diferente, e a empresa tem que fazer o próprio diagnóstico e traçar um caminho. Só é preciso mapa e bússola, e aí desenhar a jornada.

Rodrigo: A própria tecnologia está abrindo possibilidades. Vou compartilhar duas experiências recentes: contratamos dois profissionais muito qualificados, um de inteligência de dados e outro de auditoria médica para desenvolver trabalhos específicos de pesquisa e padrão de comportamento. Um é do Piauí e outro está em Lisboa. E trabalharam diariamente conosco através do Zoom. A barreira geográfica acabou. Ainda damos passos receosos porque nunca fizemos isso, mas é possível conectar de forma colaborativa mentes sem uma relação física de trabalho. Os CEOs e gestores têm que abraçar essa possibilidade de sair do convencional.

Lobão: É verdade. Faço parte de outro conselho, da Senior Sistemas. Para isso tive que me mudar para Blumenau [onde fica a empresa], e ir para a sede todo dia. E aí descobrimos que poderíamos contratar gente na Índia, na China ou Estados Unidos. E hoje estamos pensando em diminuir a sede pela metade, porque não temos mais necessidade de trazer programadores. Temos equipes que trabalham de noite, uma linha de produção 24 horas por dia ao invés de um modelo de trabalho sob vigilância. É uma mudança bem radical.

 Rodrigo: E como você acha que essa mudança radical trará benefícios para o setor da Saúde?

Lobão: Você domina muito mais essa área do que eu, mas como alguém que olha de fora sinto falta de monetizar a Saúde. Falamos de um setor de doença, não de saúde. Só temos métricas para sinistros, valores de consulta e exames. É o setor da doença, mas que deveria ter como premissa o valor da saúde. Vou fazer uma conversa de maluco: na engenharia temos a famosa curva da banheira, que demonstra que uma máquina costuma dar mais problemas no início e no final da vida útil. Todo esforço da engenharia é aumentar o tempo entre um evento e outro. Se levarmos isso para a Saúde, no início da vida temos grandes custos e no final também, principalmente com sinistros. A grande questão é como monetizar a curva da banheira para construir valor na Saúde. Pagar o médico pela não-consulta, porque ele conseguiu trazer mudanças de hábito, criar qualidade de vida.

 Rodrigo: Uma grande incógnita com a qual vamos nos deparar em breve é o pós-pandemia. Qual sua expectativa para os próximos meses e por que a inovação e a tecnologia são importantes?

Lobão: Tentar enxergar neste momento em que estamos no furacão é muito difícil. Mas há momentos em que o furacão para e podemos vislumbrar alguns flashs. Por exemplo, os consumidores que passaram a comprar no comércio eletrônico pretendem continuar. O mercado de casas afastadas [dos grandes centros] está extremamente aquecido porque as pessoas estão dando mais ênfase à qualidade de vida. Há uma fila de IPOs [ofertas iniciais de ações em bolsa] com 20 empresas de construção esperando para o próximo ano. Vamos ter um aquecimento de fusões e aquisições, e o Brasil ficou barato para o capital externo. Não vamos retroceder, a velocidade [do mercado] vai aumentar.

 *Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

 Esta entrevista foi produzida com o apoio do jornalista Marcelo Vieira.

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