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Cezar Taurion: “A sociedade impulsiona a transformação dos negócios”

Publicado em: 11/02/2021

Cezar Taurion: “A sociedade impulsiona a transformação dos negócios”

Para especialista, cenário digital é irreversível e inadiável, mas nem todos os players farão a mudança no mesmo ritmo

Por Rodrigo Guerra*

Cezar Taurion é um daqueles especialistas que acompanho com afinco. Hoje vice-presidente de estratégia e inovação da consultoria Cia Técnica, passou longos anos como líder de tecnologia da PwC e, depois, evangelista da IBM. Foi para o mundo das startups com a Kick Ventures, o que significa que entende tanto da TI do passado como da inovação do presente.

Portanto, sabe como poucos por onde andamos e para onde vamos quando o tema é tecnologia e inovação. Por isso o convidei para participar da série “Conversa de Inovação”, e o papo foi tão rico quanto o esperado. Falamos não só de inovação, transformação digital e do ecossistema brasileiro de startups, mas também de carreira, e-books e bandas de rock.

Compartilho com vocês alguns dos melhores momentos da nossa conversa:

Rodrigo Guerra: Cezar, você é economista, assim como eu, mas foi guinando a carreira para a tecnologia. Como foi esse processo para você?

Cezar Taurion: Eu me formei em economia e fiz mestrado em ciências da computação, mas minha primeira tentativa profissional foi como piloto. Meu sonho era entrar na Varig. Embora eu pudesse voar mesmo com o meu grau de miopia, a Varig era exigente e não me aceitou. E eu não queria voar em outras companhias. Após a decepção, um professor de economia me mostrou um mainframe. Comecei a entrar mais a fundo no tema, gostei e segui a carreira. Sempre trabalhei com tecnologia e negócios, e sempre me preocupei com as aplicações, não a tecnologia. Em 2013 saí do mundo corporativo e estou agora em um momento que envolve academia, como professor, mentoria e startups, e também o conselho de algumas empresas. Tudo isso me traz um aprendizado muito grande, falar com pessoas de várias gerações e percepções diferentes todo dia. Estou aprendendo mais durante esses anos do que em toda minha vida profissional.

Guerra: Legal ouvir essa história. Eu também sou economista, mas fui para a área da gestão. E tem uma coisa que acho sempre curiosa. Na minha época de 15, 20 anos, o garoto que queria mudar o mundo montava uma banda de rock. Hoje monta uma startup. Você que faz trabalho de mentoria, o que diferencia uma startup? O que te faz sentir que uma empresa tem essa pegada?

Taurion: Aos 16 eu também montei uma banda de rock. Não mudamos nada porque não tínhamos muito talento (risos). Mas foi divertido. Nos últimos anos surgiu uma epidemia de startups. O lado bom é que elas são extremamente necessárias para qualquer país, e os mais empreendedores incentivam isso. Por outro lado, surgiu uma característica meio disfuncional: [a crença de] que basta juntar três pessoas e trabalhar no Starbucks que nasce uma startup, depois um unicórnio. Não é verdade. Noventa e nove por cento é trabalho, resiliência, fazer acontecer. Se não mergulhar para fazer entregas tangíveis, a coisa não acontece.  Temos uma pequena parcela da população fazendo empreendedorismo inovador, mas nosso modelo de escola e universidade é inibidor. Temos muitas dificuldades burocráticas, que estão diminuindo, mas ainda são muitas. Temos dificuldade de acesso a capital.

Guerra: Você diria que a transformação digital no Brasil ainda é muito discurso e pouca prática?

Taurion: Estamos em um período interessante que podemos dividir como AC e BC: antes da Covid-19 e depois da Covid-19. Antes se assistiam a palestras, eventos, liam-se artigos sobre VUCA [acrônimo para descrever quatro características marcantes do momento em que estamos vivendo: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade], transformação digital, etc. Todo mundo falando de digital, mas sem realmente fazer. Quando veio a pandemia, tivemos que trazer para hoje o futuro de quatro ou cinco anos para frente. Muita gente foi para o mundo digital, mas com aquele pensamento que depois voltaria ao normal e à nossa velha rotina. Mas não vai voltar mais. Vimos que o digital funciona bem. É um processo irreversível. E agora estamos vendo que as empresas que fizeram a transformação digital sem pensar muito estão buscando consolidar os processos. Não basta criar um app, é preciso redesenhar processos. Tornar a organização mais rápida, resiliente, elástica, e não é um app que resolve isso. Os processos que trazem poder de operação eficiente para as empresas são os que a tornam digital.

Guerra: O que a pandemia proveu de improviso, como as relações de trabalho digitais e a telemedicina, se serviram para algo foi quebrar barreiras culturais, resistências. Estamos desenvolvendo soluções de pronto atendimento pediátrico vertical, por exemplo. A mãe que usa uma vez não abre mais mão de não ter que correr para o PS. Abriu-se um campo que cabe às empresas saberem aproveitar.

Taurion: Você tocou em um ponto nevrálgico. A pandemia em si não trouxe nova tecnologia. Ela quebrou barreiras culturais. Em muitos trabalhos administrativos você saia de casa, ficava no congestionamento, passava o dia inteiro falando com gente fora do escritório, e depois voltava para casa. Isso dá para fazer em qualquer lugar! E agora vamos reinventar o trabalho de escritório. Somos seres sociais e precisamos estar próximos, mas não todo dia. Na educação também. Será que faz sentido ir para uma sala de aula todo dia ouvir coisas que posso acessar online? Que tal ir para outro tipo de coisa, como trabalhar em grupos ou atividades que incentivem a inovação? 

Guerra: Que bloqueios a inovação sofre na mentalidade das lideranças atuais, Cezar? Você acha que é possível removê-los?

Taurion: Existem diversos níveis de mudança e aceitação. A sociedade em si muda muito rápido, e as empresas mais lentamente. Os gestores também. Agentes regulatórios são mais lerdos ainda. Você vê no setor público algumas cabeças brilhantes, mas ainda existe um pensamento conversador. Alguns são mais dinâmicos, como o setor financeiro. Outros muito conservadores, na educação, por exemplo, desde o próprio ministério até os diretores de escolas. Isso faz com que as aulas também sejam. Em determinadas carreiras, na medicina, por exemplo, isso também acontece. Na maioria dos conselhos de medicina estão profissionais de longa data. Então há esses desníveis, não vai haver evolução de forma homogênea.

Guerra: Isso quer dizer que não é possível induzir mudanças?

Taurion: Acredito que é muito difícil fazer mudanças forçadas, porque o conjunto de atores é grande e com interesses conflitantes. Mas o interesse de baixo para cima, como a sociedade querendo funcionalidades, faz com que os negócios comecem a reagir procurando ser mais ágeis. E aí provavelmente vão começar a olhar o aparato regulatório e pressionar para mudar. É interessante que em alguns setores a regulação acaba privilegiando os atores. O sistema financeiro, antes das fintechs, era muito concentrado. Os sites [dos bancos] eram parecidos, com poucas funcionalidades, mas eles tiveram que se transformar, e não foi porque quiseram. O mercado os levou a fazer isso.

Guerra: Aproveitando o tema do seu e-book chamado “O primeiro passo: a transformação digital como base para os negócios pós-digitais no século 21”, quais são esses primeiros passos? Como uma corporação tradicional pode inovar?

Taurion: Escrevi dez livros. Gosto de escrever. Coloquei esse título porque, para mim, a transformação digital não é um fim, é uma forma de preparar uma empresa para um cenário de mudanças contínuas. Na sociedade industrial havia certos períodos de mudanças, depois de estabilidade. O modelo de negócios era sempre basicamente o mesmo. O que vemos hoje é que o mundo digital entra no mundo real, diminui a fricção e as mudanças se tornam mais rápidas. Isso faz com que precise mudar de rumo bem no meio do pulo. Como faço isso? Tornando a empresa o mais digital possível. Isso é uma empresa do século 21.

Guerra: E o que as empresas brasileiras têm feito para alcançar esse objetivo?

Taurion: Tenho visto um pouco de tudo. Antes as áreas de P&D ficavam em um canto inventando produtos, e anos depois aquilo era vendido. Hoje P&D ainda existe para pesquisas básicas de muito longo prazo, mas inovação surge no dia a dia da organização. Esse, talvez, seja o caminho mais comum. Criar uma área de inovação. Mas se meia dúzia de pessoas fica com a missão de mudar uma empresa inteira, não vai dar certo. É como ter um jardim com animais silvestres só para levar os convidados. E inovação não é andar de bermuda e substituir mesas por pufes. É uma mudança mental, cultural, em que tenho que continuamente ver se estou fazendo as coisas da melhor maneira possível. Tem que ser contínuo, não dá mais para manter tudo igual.

Guerra: Você me mandou um outro e-book recente que escreveu sobre inteligência artificial e transformação digital na área da saúde. Como você avalia esse setor em específico?

Taurion: A IA aplicada à saúde tem potencial de ajudar no processo de transformação. É uma mudança do modelo de doença para o de saúde. Hoje o atendimento é em massa, com IA passa para individualizado. De reativo para preditivo, baseado em dados. No meu entender, essa é a tônica do e-book, vai tirar o robô de dentro do médico e fazer com que ele seja, de fato, um médico. Hoje a grande maioria dos atendimentos são de cinco minutos, o médico não ollha no olho [do paciente], pede outro exame ou marca outra consulta. A IA pode ajudar a ampliar a capacidade do médico e do diagnóstico. No backoffice também. Com certeza grande parte das redes hospitalares têm processos ineficientes: trocas de turno, ocupação de leitos, sistemas que não conversam, e muita ineficiência de processos.

*Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

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