"Essa pandemia é um freemium da Saúde Digital no Brasil”, diz Lívia Cunha - Unbox
“Essa pandemia é um freemium da Saúde Digital no Brasil”, diz Lívia Cunha

Publicado em: 07/07/2020

“Essa pandemia é um freemium da Saúde Digital no Brasil”, diz Lívia Cunha

Engajar o paciente no tratamento com o auxílio da tecnologia é a proposta de Lívia Cunha e sua empresa, a CUCO Health – e um dos focos desse bate-papo com uma das mais jovens e destacadas empresárias brasileiras do setor de Saúde

Por Rodrigo Guerra*

Lívia Cunha não era médica, mas decidiu fundar uma empresa para cuidar de uma questão essencial no universo da medicina: a adesão do paciente ao tratamento. Em 2016, criou a startup CUCO Health, que desenvolveu um aplicativo dedicado a ajudar o paciente a seguir as prescrições de seu tratamento. Uma iniciativa que concentra todos os predicados da transformação da Saúde.

Desse momento em diante, a história de Lívia, da empresa e do aplicativo andam juntas, e o resultado dessa caminhada chamou a atenção de diversos players da Saúde. Por isso, convidei-a para mais esta edição da série “Conversa de Inovação”, a fim de conhecer suas ideias sobre a digitalização da Saúde e como a tecnologia pode transformar o setor. E a conversa foi inspiradora. Lívia acredita que a inovação depende mais da mudança de estrutura do que da tecnologia em si, e procura vencer as barreiras que impedem essa transformação. 

Compartilho com vocês os melhores momentos desse bate-papo, que ajudam a entender porque ela foi escolhida pela Revista Forbes, em janeiro de 2020, para integrar a lista Under 30 – um reconhecimento aos jovens profissionais que se destacam em sua área de atuação. 

Rodrigo Guerra: O aplicativo CUCO se propõe a engajar o paciente no tratamento. Como você identificou essa necessidade e qual foi a resposta do mercado ao lançamento?

Lívia Cunha: Meu pai é médico e empreendedor. Eu não segui a carreira de medicina, mas acompanhava a relação que ele estabelecia com os pacientes e via que, por diversas vezes, a pessoa voltava ao consultório com a mesma queixa. E isso acontecia especialmente porque ela não seguia os cuidados. O que a levava a esse comportamento? Isso sempre me chamou a atenção. Fui pesquisar sobre o tema e os dados eram assustadores [por exemplo, cerca de 60% dos pacientes com diabetes não seguem as prescrições, e no caso dos hipertensos, 40%, segundo a OMS]. Decidi me aprofundar no assunto e, em 2016, lançamos a primeira versão do aplicativo CUCO, dedicado a ensinar a tomar os remédios do jeito certo. 

Rodrigo: E como foram os primeiros meses do aplicativo no mercado?

Lívia: Muito rapidamente ele começou a gerar valor na mão do paciente. Porém, a Saúde é uma cadeia muito complexa e não adianta gerar valor apenas em um ponto: era preciso conectar hospitais, clínicas e operadoras para poder ajudar de forma mais efetiva. Foi quando surgiram os desafios naturais do modelo de negócio: como uma operadora vai olhar para uma ferramenta inovadora, criada por uma startup praticamente desconhecida, ainda em 2016? Se a gente tivesse lançado o CUCO hoje, o cenário seria mais permeável, mas em 2016 foi bem mais difícil. Decidimos nos aproximar primeiro de hospitais, e mostramos que os dados capturados pela ferramenta tinham potencial para melhorar os resultados e os índices do paciente. O HCor [Hospital do Coração de São Paulo] foi o primeiro case: fizemos um trabalho com crianças cardiopatas. Muitas delas iam até o hospital, saindo de diferentes regiões do Estado, ali recebiam tratamento e, quando voltavam para suas cidades, não tinham mais contato com a equipe médica. A adesão média ao tratamento era de 40% porque havia essa dificuldade em manter o acompanhamento. Essas crianças e suas famílias passaram a contar com o CUCO no pós-alta, atuando como uma enfermeira digital que os ajuda a entender melhor essa nova condição de vida. Em contrapartida, a equipe do HCor recebia os dados dos pacientes em tempo real. Em 12 meses, a adesão ao tratamento subiu para 70%. Percebemos o quão importante é envolver mais partes da cadeia no cuidado, gerando valor para o paciente e para as instituições. Isso nos permitiu pensar em como arquitetar devidamente o modelo de negócio. Pegamos o nosso desafio – que era cuidar de pacientes – e fomos estudar outro elemento importante, que era a indústria farmacêutica. Hoje, eles são nossos maiores parceiros. 

Rodrigo: E como funciona essa relação de vocês com essa parte da cadeia?

Lívia: O CUCO captura dados específicos que ajudam a entregar uma melhor experiência de tratamento para os pacientes. Mas acredito que um exemplo bem claro de nossa parceira seja no acesso aos medicamentos. Hoje, por conta da pandemia, encontrar médicos presencialmente se tornou um desafio, principalmente no caso de pacientes crônicos, que estão no grupo de risco. Assim, fizemos o projeto Primeira Caixa, no qual o médico tem um estoque virtual de caixas do medicamento e libera pelo aplicativo para que o paciente possa retirar com parceiros estratégicos. Temos parceria com um PBM [Programa de Benefícios em Medicamentos] que envolve mais de 30 mil farmácias no País. A indústria farmacêutica já era nosso foco antes da pandemia, então pudemos nos especializar nesse universo e oferecer essa solução rapidamente. Tudo isso é parte de uma movimentação que visa centralizar o cuidado no paciente. Em 2016 o mindset era outro, mas hoje a medicina baseada em valor está mais presente. 

Rodrigo: È muito interessante conhecer essa trajetória da CUCO Health, e ela mostra que a parceria com startups é um caminho para agilizar a transformação da Saúde – talvez um dos únicos caminhos capazes de mudar a mentalidade e os modelos atuais. Temos muitas amarras contratuais e culturais em uma operadora, e uma startup pode subverter o sistema e encurtar o caminho. Como você vê a questão?

Lívia: Eu e a CUCO Health já enfrentamos um desafio com as operadoras. Elas até começaram a se encaminhar para uma transformação digital há uns dois ou três anos, mas buscam contratar apenas grandes players de digitalização. Para a startup entregar valor e competir com esses players, ela precisa ser capaz de se plugar sua solução à toda a cadeia da Saúde. O que eu vejo, muitas vezes, são as startups querendo resolver um problema de ponta a ponta em vez de escolher um quadrado, se especializar nele e se conectar ao resto da cadeia. Por isso também acredito que a parceria é o melhor caminho.

Rodrigo: Todos os serviços de vocês passam pelo digital. Você contou que os pacientes aderiram rapidamente, mas imagino que houve alguma resistência entre médicos ou operadoras, certo?

Lívia: Sim. No começo, a barreira era mais relacionada aos profissionais de Saúde. Não dá para colocar as operadoras todas no mesmo pacote, porque cada uma tem um sistema de gestão e um modus operandi. A barreira existia principalmente do lado operacional,  desde a adoção por profissionais de Saúde que já usavam outros sistemas até não ter uma equipe preparada para acompanhar os dados do paciente. Hoje o desafio está mais relacionado à tecnologia na cadeia, como me plugo à solução que a operadora já usa para gerar dados e, assim, consigo acompanhar o paciente como um todo, sem ter que lidar com várias interfaces diferentes. 

Rodrigo: O fato de você estar à frente de uma empresa que já nasceu digital ajudou a lidar com a adequação dos negócios ao cenário de pandemia da Covid-19? 

Lívia: Muito, porque os pacientes crônicos, que são nosso público, precisam ficar em casa, mas não podem dispensar os cuidados de saúde. Somos, essencialmente, uma empresa de cuidado digital, o que nos permitiu ajudar a tratar e a educar o paciente com informações de fonte segura, colaborando para aliviar a ansiedade das pessoas e também conectá-las ao médico sem a necessidade de um encontro presencial. Esse período de pandemia é um freemium da Saúde Digital no Brasil. Os usuários estão vendo o que gostam, como se adaptam, e no pós-pandemia vão escolher o que querem usar para gerir o próprio cuidado. Só para ilustrar: conseguimos cumprir em dois meses o planejamento que tínhamos para os próximos dois anos. E isso não somos só nós, mas praticamente todas as health techs.

Rodrigo: O caminho que vocês escolheram segue o princípio de acompanhar a jornada do paciente. Em paralelo, o mercado fala muito da importância de cuidar da jornada do cliente para manter a continuidade dos negócios. Você vê semelhanças entre essas duas jornadas?

Lívia: Elas são semelhantes, mas há um ponto fundamental de diferença entre elas. Aqui no Brasil – e em outros lugares também – a gente associa muito o cliente e a entrega de valor ao dinheiro. No caso da Saúde, raramente é o paciente que paga diretamente por ela [já que a maior parte dos beneficiários da Saúde Suplementar vêm de planos coletivos, bancados pelas empresas para seus trabalhadores]. Essa configuração dificulta às operadoras verem esse indivíduo como cliente, mas, no fim do dia, cliente é a pessoa a quem você entrega valor. Então, voltando à pergunta, a minha resposta é que o paciente deveria, sim, ser visto como consumidor, mas existe essa bifurcação – que só pode ser quebrada mudando a mentalidade. 

*Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

Esta entrevista foi produzida com o apoio do jornalista Leonardo Vinhas.

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Linkedin

Assine a Unbox News