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Gattaca: a engenharia genética que não queremos viver

Publicado em: 25/03/2022

Gattaca: a engenharia genética que não queremos viver

Imagine um novo tempo em que, em vez do seu currículo e das suas experiências, todos só se importassem com o que acontece dentro das suas células

Por Rodrigo Guerra*

Como seria um mundo onde pudéssemos corrigir qualquer imperfeição do ser humano antes mesmo de ele nascer?

Com a evolução das técnicas da engenharia genética, é bem possível que em breve todos os bebês sejam testados e moldados para viver em sua plenitude, sem doenças incapacitantes, nem comprometimento físico e/ou intelectual que o desabone de ser sempre o melhor – em tudo o que fizer.

Eu sei: a priori, soa como uma possibilidade muito boa, certo? Afinal, quem optaria por viver com o fardo da imperfeição genética quando é tão fácil (re)programar a máquina humana in vitro?

Só que, refletindo a esse respeito, como faz o filme Gattaca – A experiência genética (1997), podemos listar algumas implicações terríveis e que certamente ninguém estaria confortável em aceitar.

Acabo de rever o filme e, por isso, as cenas estão frescas na memória. Vou citar algumas dessas implicações, mas sem spoiler sobre a trama! Quero compartilhar minha opinião sobre a essência da história. Assiste aí e depois me diga se concorda comigo…

“Quem pode endireitar o que Deus fez torto?” , Eclesiastes 7:13

 

Começo pelo cenário de uma completa perfeição genética (que eu diria ser quase nazista), presente no filme até mesmo nos penteados dos personagens geneticamente modificados (ou programados?). Eles se contrapõem ao aspecto desgrenhado e diminuído dos chamados inválidos, cujos pais se recusaram a adotar a engenharia genética na gestação.

O ar de urgência que paira na trama também nos leva à reflexão. É como se tudo precisasse ser pra já e até o genoma pudesse ser “express”. Em uma cena, a personagem de Uma Thurman entrega um fio de cabelo em uma cabine de atendimento e, em poucos minutos, recebe um relatório completo sobre a qualidade genética do dono do fio de cabelo para decidir se vale – ou não – investir em um relacionamento amoroso. Me pergunto se estamos longe de um cotidiano tão imediatista…

Há também uma discussão importante sobre a diferença entre ter um gene ótimo versus a forma como esse gene se expressa no ambiente. Além, claro, do tal “gene da fatalidade”, algo que simplesmente não existe (afinal, de que adianta ser “absolutamente perfeito” e sofrer um acidente que o deixa inapto a viver o mundo de plenitude que lhe foi garantido?).

São questões que envolvem a ciência. Mas que suscitam em mim um senso crítico de cunho, diríamos, filosófico. Me chama especial atenção a relação entre dois personagens – dois irmãos –, um deles gerado in vitro e outro “filho da Fé”, ou seja, não modificado do ponto de vista genético.

Em uma disputa de natação, o personagem que não foi moldado pela engenharia genética vence o irmão. Contraintuitivo, o triunfo leva o ganhador a dizer que, para ele, não se tratava de nadar pensando em guardar energia para a volta, mas sim de dar sempre tudo de si em qualquer situação. 

Foi a sua humanidade que o fez vencer. E é justamente a nossa humanidade que se destaca e prevalece em inúmeras situações. Quando um ser humano supera outro, desnuda-se um aspecto emocional, falível e trágico que todos carregamos conosco. E que não está exatamente nos genes.  

A engenharia genética não irá corrigir nossas angústias, nem diminuir nossa essência humana. Por isso, precisamos ser extremamente críticos diante do avanço do uso desse tipo de biotecnologia.

 

O pensamento crítico é a proposta editorial do Projeto Unbox. E sugiro que, no dia a dia, eu e você tenhamos uma postura reflexiva diante da nossa incursão ao mundo da tecnologia, em vez de simplesmente aceitar segui-lo, acatando, sem filtro nem crítica, todas as novidades que nos são mostradas. Nem sempre elas são boas coletivamente.

*Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação. *Essas duas áreas não costumam ser associadas, mas quando estão lado a lado, elas conseguem transformar projetos inovadores em prática diária nas empresas. No Unbox, do qual é fundador, realiza uma curadoria de conteúdos fundamentais para impulsionar as mudanças urgentes e necessárias de pessoas, negócios e da sociedade.

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