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Inovação na Saúde exige espírito empreendedor, garante Roberto Celestino Pereira

Publicado em: 29/10/2020

Inovação na Saúde exige espírito empreendedor, garante Roberto Celestino Pereira

Para o líder de inovação da Everis, aliança com startups e fomento ao ecossistema de inovação é parte do caminho para que organizações de Saúde se tornem disruptivas

Por Rodrigo Guerra* 

Roberto Celestino Pereira é um veterano quando o tema é inovação. Profissional com experiência nas maiores consultorias de negócios do mercado e professor universitário especializado em gestão de projetos e outros temas, é atualmente responsável pelas iniciativas de disrupção na espanhola Everis. Seu objetivo é criar um ecossistema forte para a co-criação e a inovação no Brasil, inclusive na Saúde.

Batemos um papo de cerca de uma hora para mais esse conteúdo da série “Conversa de Inovação”. Abordamos desde as mudanças do conceito de inovação ao longo dos anos até as formas de as organizações de Saúde se aproveitarem e se integrarem ao ecossistema de inovação. Tirar projetos do papel pode ser um grande desafio, e se aproveitar da capacidade das startups para acelerar essas iniciativas é um caminho não só possível, mas recomendado.

Confira abaixo os melhores momentos da conversa.

Rodrigo Guerra: Desde 2015 você trabalha inovação na Everis, e antes disso na FIAP, na Deloitte e em outras empresas. Como a abordagem do tema mudou ao longo dos anos?

Roberto Celestino Pereira: Meu background é de consultoria, e essas grandes consultorias sempre fizeram projetos com inovação embutida, que tinham como finalidade mudar algo. O advento das novas tecnologias impulsionou a visão para uma mudança mais radical. Principalmente inteligência artificial (IA), realidade aumentada, internet das coisas (IoT), trouxeram uma velocidade enorme para gerar novos modelos de negócio. Então, passamos de projetos com uma visão incremental para uma visão radical que permite a disrupção.

Guerra: As empresas brasileiras estão trilhando esse caminho com sucesso? Que setores estão mais avançados e quais precisam correr?

Pereira: As fintechs são as que mais surfaram, que mais viraram unicórnios. Se você olha para o setor [financeiro], ele é muito bem regulado, tem um core muito forte, que é o da conta corrente, um modelo difícil de mudar. Por outro lado, tem muito dinheiro para investir. E se você olha pela lógica do consumidor, do correntista, ele sempre quer inovação. O setor financeiro como um todo se deu muito bem, colocou em produção projetos importantes. Para o varejo, é outra ótica. Ele tem muito apetite pelo risco, sempre precisa de inovação. Aposta e não tem tantos regulamentos. Mas o olho do furacão está na Saúde [no contexto da pandemia]. Ele [o setor] estava no front, teve que mudar. Foi forçado a ter um aprendizado enorme, com muitos turnovers, muitos ingressantes. E em uma velocidade incrível. Todo mundo teve que aprender como operar do dia para a noite e com protocolos até então desconhecidos. O aprendizado foi incrível. São muitas novas tecnologias, muita realidade aumentada, gameficação, geolocalização, wearables.

Guerra: As grandes empresas têm dificuldades de errar, de pensar modelos [de negócio] e testar quais serão bem recebidos pelo público. Mas tanto as Unimeds como os concorrentes têm feito movimentos para se aliarem à startups, e depois se apropriarem das soluções. Não só operadoras como hospitais estão buscando soluções no ecossistema.

Pereira: É preciso pensar no ciclo inteiro do bem-estar, e essa ideia veio de uma aula muito interessante que tive em Harvard. O professor dizia que a jornada da saúde é extensa. Começa em querer ser saudável, alimentar-se corretamente, fazer ginástica. Passa pelo momento em que se detecta uma anomalia, começa a investigar, pesquisa na internet. Então, tem a decisão de ir ao médico, ao hospital, laboratório, comprar medicamento. São muitas etapas e é impossível ser especialista em tudo. Tem que fragmentar, como muitas startups que têm soluções para a agenda do médico, outras usam IA para reconhecer pré-diabéticos e por aí vai. As startups vieram e estão cada vez mais preparadas para resolver determinados momentos da jornada, juntando blocos para entregar valor em cada etapa.

Guerra: Do ponto de vista prático, quais os caminhos mais importantes para que as empresas de fato tirem projetos de inovação do papel?

Pereira: Primeiro assumir o papel do empreendedor mesmo, ser resiliente e resistente. Saber fazer a proposta de valor e não ser o cara que acha que vai mudar o mundo, que é dono de um tesouro. Mas é preciso, ao mesmo tempo, saber o papel que se tem. E ter boa visão comercial. Validar hipóteses, ter gente do lado que vai testar. O segundo ponto é ter um protótipo. Funciona? Dá para baixar em uma loja de apps? Continua na mesma versão tem dois anos? É fazer a diligência, descobrir se não é só papo. E por último, por incrível que pareça, olhar o tamanho do mercado para ver se vai ter escalabilidade.

Guerra: Complementando o que você falou e pensando no empreendedor, ele tem um campo enorme a ser explorado, que são as grandes corporações. Eu estou sentado em uma cadeira em que constantemente chegam soluções. E as startups precisam olhar para sua capacidade de execução, nem tanto na ideia brilhante. Ideias chovem em brainstorms. A empresa tem que passar segurança na capacidade de entrega e de execução.

Pereira: Por isso a importância do ecossistema. A startup tem um core, mas não tem a menor ideia de como plugar a solução no ambiente hospitalar, que é muito complexo. Um exemplo bem simples é o kit cirúrgico. Acompanhar a jornada desse item no hospital parece simples, mas é difícil demais. Os processos hospitalares são complexos. E o cara da startup não tem a visão, pensa que é botar uma etiqueta RFID e pronto. São outros atores que ajudam na implementação.

Guerra: Aproveitando sua experiência como professor, qual a importância da educação executiva para estimular a inovação, tanto na Saúde como em outros setores. É importante formar executivos inovadores na academia?

Pereira: É preciso ter os fundamentos. Quando você estuda inovação, entende o tripé da neurolinguística, que é teoria, prática e explanação. Quando você entra em uma sala de empresa ou universidade, de fato nem todo mundo empreende na mesma intensidade. E ficar falando só de teoria não vai dar liga. Quando você explica o fundamento, de onde veio, porque aquele assunto chegou até a atualidade, o cara entende e vai praticar. Vai usar Canvas, vai fazer dinâmicas em grupo, usar óculos de VR, etc. E na prática vai ver se entendeu ou não. E no terceiro estágio, quando ele fala, diz o que entendeu, ratifica o conhecimento e abre para feedbacks.

Guerra: A Everis e a NTT Data anunciaram recentemente um concurso internacional de inovação aberta. Conte um pouco mais. Como esse tipo de iniciativa pode estimular a inovação, especialmente na Saúde?

Pereira: O Empreenda Saúde é feito pela Fundação Everis e está em seu sexto ano, já e é um prêmio reconhecido pelo mercado. Fizemos uma adaptação neste ano para categorias ligadas ao momento. E tem uma chamada nacional. Foram 427 projetos inscritos em todo território nacional. Filtramos para 130 de alto potencial, escolhidos por um comitê de apoiadores. Depois, começamos a triar com uma equipe de jurados incríveis, com a doutora Linamara [Battistella, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo], o Paulo Chapchap [Hospital Sírio-Libanês], a Luiza Trajano [do Magazine Luiza], advogados, pesquisadores, empreendedores. São 43 jurados, uma banca, com várias óticas do setor. É extremamente rico com sua complementaridade de visões. 

Guerra: É impossível evitar o tema pandemia. Que efeitos positivos você acha que a crise sanitária atual trouxe em termos de inovação?

Pereira: A colaboração entre atores do ecossistema, que é incrível. E melhorou muito também a posição de valor que cada ator ocupa. As empresas passaram a ter uma percepção mais clara do valor que têm e como o aportam. No digital, ficamos mais pragmáticos, o que trouxe à tona um senso de proposição de valor. Ninguém fica mais perdendo tempo. E aí vou falar do meu time. Trabalhamos em um ambiente de realidade virtual. Nós usamos WhatsApp, Discord, claro. Os boards [de tarefas]. Mas não é a mesma coisa, a inspiração exige encontrar gente, precisa encostar, escrever num post-it e grudar na parede, olhar no olho. Essa ausência nos levou a criar um ambiente de realidade virtual, e nos encontramos lá em 3D. Melhorou muito. O headset que usamos é avançado, os braços e lábios mexem, eu consigo puxar um colega para uma sala e falar com ele em privado. Escrever ao mesmo tempo em uma whiteboard. Um laboratório em 3D em realidade virtual. Parece coisa de louco, mas aumentou a produtividade.

Guerra: Para encerrar, me fala um pouco dos seus planos futuros. O que tem te motivado a continuar inovando?

Pereira: Inovação tecnológica e transformação digital são um oceano azul. Há muito a fazer e estamos na beiradinha. Quando vier o 5G, o edge computing, aí sim vamos ver uma transformação sem precedentes.

 *Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

 Esta entrevista foi produzida com o apoio do jornalista Marcelo Vieira.

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