"Inovar é olhar todos os lados da Saúde Pública, do paciente ao profissional", garante Fabiane Simões - Unbox
“Inovar é olhar todos os lados da Saúde Pública, do paciente ao profissional”, garante Fabiane Simões

Publicado em: 23/02/2021

“Inovar é olhar todos os lados da Saúde Pública, do paciente ao profissional”, garante Fabiane Simões

Farmacêutica com longa experiência em gestão pública e que hoje atua como consultora quer fazer a ponte entre práticas inovadoras e atenção primária no Sistema Único de Saúde

Por Rodrigo Guerra* 

Fabiane Simões escolheu ser farmacêutica porque queria “contato com as pessoas, com a assistência”. Desde os anos 1990, quando concluiu a graduação, a especialista em gerenciamento de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) atuou em gestões públicas municipais e estaduais cuidando de um assunto que interessa a mais de 150 milhões de brasileiros: o Sistema Único de Saúde (SUS). Mais precisamente da atenção primária.

Após passar por cargos de gestão nas administrações municipais de Guarapari, Viana e Vitória, além do governo do Estado do Espírito Santo, Fabiane deu uma guinada na carreira: tornou-se professora e consultora de projetos com foco em design de serviços. Atualmente dedica especial atenção ao tema da inovação e busca formas de inserir metodologias e práticas inovadoras na gestão pública da Saúde.

Convidei-a para este bate-papo da série “Conversa de Inovação” para falarmos sobre como inovar é fundamental para melhorar os serviços públicos de saúde, e sobre os caminhos para alcançar essa otimização. Compartilho aqui os melhores momentos:

 Rodrigo Guerra: Fabiane, antes de mais nada, por que você escolheu ser farmacêutica?

Fabiane Simões: Em 1992 o que nos impulsionava a escolher um curso superior era ter uma graduação, um diploma. E eu sempre fui muito sensível ao setor de Saúde. Cheguei a fazer vestibular para medicina, mas, na ocasião, acabei escolhendo farmácia pela afinidade com a química, que é a disciplina base do curso. Além disso, havia poucos farmacêuticos na cidade em que eu morava [Guarapari, ES]. Fui para a federal [Universidade Federal do Espírito Santo, IFES], minha carreira toda foi em escola pública. Me formei com 21 anos, e nessa idade a gente acaba não sabendo direito os rumos que vai tomar. Queria contato com as pessoas, com a assistência.

Rodrigo: E como você ingressou na gestão pública?

Fabiane: Naquele momento a rede pública de Guarapari não conhecia o farmacêutico como profissional além do balcão. Fiz esse movimento de me inserir em várias políticas, e pude transitar por elas. Consegui algumas conquistas pessoais e profissionais, foi um ganho muito grande. E desenvolvi esses dois papéis, ao mesmo tempo em que era farmacêutica, tinha que dar conta da gestão. Fui me encantando com alguns espaços de discussão. Tive experiências em conselhos de saúde, em um diálogo mais próximo com outras instâncias, como secretaria estadual e Ministério da Saúde. E aí o SUS foi se fortalecendo. Em 1992 eu peguei a transição da história política do sistema. Fui capturada por esse movimento e minha veia é a da gestão. Depois que transitei por esses espaços e fui secretária de Saúde do município, descobri essa potencialidade de fazer política, de trazer ganhos para o processo de gestão.

Rodrigo: Que dificuldades você enfrentou? A gestão pública oferece desafios muito grandes no Brasil.

Fabiane: Não tem manual, a gente vai operando, fazendo. É uma formação em ato. Na educação permanente chamamos de “educação no fazer e no agir”. Foi doloroso sair de uma formação muito especializada, a de farmacêutico, porém bastante tímida do ponto de vista da articulação com outros profissionais de Saúde e políticas. Ir para a gestão me obrigou a desenvolver outras habilidades. Mas eu aprendi a ter uma rede de relações muito boa. Quando fui secretária, me inseri em espaços estratégicos, esse foi o primeiro desafio. Um segundo, que até hoje não me canso de falar porque algumas estruturas do SUS ganharam muita força ao longo do tempo, mas uma que não ganhou foi a gestão de pessoas. Ela impede as pessoas de se reinventarem e serem criativas. E na minha trajetória diversifiquei muito, fui desde políticas setoriais, secretária, subsecretária, e passei pela capital [Vitória], que foi uma escola muito boa. Em 2018 resolvi pedir exoneração, não tinha em mente uma transição de carreira, mas fui empreender junto com outros dois colegas farmacêuticos. Não deu certo e aí precisei me reinventar. Precisei buscar outros caminhos, acompanhar tendências e conhecer sobre  inovação, e de como posso ser uma ponte [da inovação] para o setor público.

Rodrigo: Você se dedica a muitas atividades atualmente, não é mesmo?

Fabiane: Estou em processo de transição. Faço consultoria em contrato com a Fundação Oswaldo Cruz [Fiocruz], na Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Estou estruturando minha consultoria [a Sapris], entendendo em que nicho quero atuar. Inicialmente foi na Saúde Suplementar, mas ainda estou construindo, entendendo o propósito. Tudo começou muito porque tem um forte interesse e investimento da Saúde Suplementar em buscar tecnologias na atenção primária. E entendi que durante a minha trajetória consegui ter essa experiência bacana na atenção primária e poderia fazer essa conexão. Foi aí que comecei a chegar na inovação, e como ela acontece em serviços de Saúde, sejam públicos ou privados. Fui mentora no iLabthon [maratona da Rede Conexão Inovação Pública RJ para promover inovação entre servidores públicos] e acho que posso me engajar em trazer essa linguagem para o setor público.

Rodrigo: O que seria inovador no serviço público, na sua opinião?

Fabiane: Primeiro que fomos condicionados a fazer ofertas para a população sem ouvir e saber das dores que ela tem. A gestão desse processo acaba sendo mais dolorosa para quem oferta do que para quem recebe. Se a gente não ouve e não sabe o contexto, não estamos dando conta, ficamos na contramão. Precisamos olhar inclusive para quem faz a oferta, o profissional de Saúde. Uma segunda coisa é que a forma de operar e alguns conceitos da Saúde Pública estão muito desgastados e precisamos reinventá-los, oxigenar. Quando se fala de metodologias ágeis, jornada e segurança do paciente, de ouvir a dor do sujeito, se pensa no conceito de valor. Uma grande possibilidade que vi foi o laboratório de inovação. Falta dar espaço a esses profissionais hoje tão atarefados que não tem possibilidade de encontrar outras formas de fazer.

Rodrigo: E quais os desafios para alcançar essas outras formas de fazer?

Fabiane: Uma dor imensa que encontrei como profissional de Saúde é fazer uma transição de carreira. Foi a primeira dor que encontrei, me vi sozinha e desamparada até conseguir fazer as conexões e entender os caminhos e possibilidades. Essa é a primeira dificuldade. Que apoio o profissional tem do sistema? Às vezes há muita potência, mas quase nenhum estímulo. É preciso conversar sobre isso, ter vida fora do SUS.

Rodrigo: E como a iniciativa privada pode apoiar esse processo?

Fabiane: Nesse processo que acompanhei no iLabthon vi algumas lives em que laboratórios de inovação trouxeram experiências. E há uma marginalização grande quando se tenta aproximar o privado do público porque sempre se imagina que há perda para o público e ganho para o privado. E foi interessante saber que o Paraná, por meio de um laboratório de inovação, está identificando os grandes desafios e trazendo para o diálogo startups e outras empresas que podem desenvolver soluções importantes. Esse diálogo é possível tanto do ponto de vista da segurança jurídica quanto da convergência de propósitos. O bem comum da saúde é o cidadão, e essas forças podem se ajudar.

Rodrigo: A pandemia ajudou ou atrapalhou o processo de inovação na Saúde Pública?

Fabiane: Enquanto eu estudava o processo de inovação e saúde 5.0, vi muito presentes as ferramentas de telemedicina. E pensei que aquilo ia demorar muito para se tornar uma prática por conta da resistência natural dos profissionais e da gestão. Mas a pandemia acelerou não só a telemedicina na atenção primária, mas também na regulação. Isso foi importante para otimizar o acesso, organizar mais o sistema. Mais do que usar a tecnologia para um simples acompanhamento, a pandemia serviu de gancho para os gestores se debruçarem sobre a regulação e entregarem tecnologias na Saúde de forma equânime, em tempo oportuno, com valor para o usuário. É um grande salto.

*Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

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