Marcela Rocha: “O investidor brasileiro precisa diversificar e arriscar mais” - Unbox
 Marcela Rocha: “O investidor brasileiro precisa diversificar e arriscar mais”

Publicado em: 17/03/2021

 Marcela Rocha: “O investidor brasileiro precisa diversificar e arriscar mais”

Economista da Claritas Investimentos atua há 14 anos no mercado e faz uma análise sobre o cenário pós-pandemia – e as oportunidades para a inovação que virão com ele

Por Rodrigo Guerra* 

Em um ano de pandemia, muitas tecnologias foram implementadas ou aceleradas para possibilitar o trabalho remoto, obrigando-nos à adaptação e, mais que isso, a criar formas de trazer valor a esses novos modelos de atuação. Podemos até não perceber logo de cara, mas a possibilidade de bater um papo com a Marcela Rocha, economista da Claritas Investimento, por meio de uma videochamada já é, em si, um evento de inovação que foi acelerado a partir das mudanças que vivenciamos em 2020.

Em um cenário pós-pandemia, é ainda mais urgente pensar em formas de conduzir projetos inovadores nos negócios. Mas, para que isso aconteça, é preciso investir. Convidei a Marcela para falarmos sobre o cenário econômico brasileiro e mundial neste ano e como ele pode favorecer o investimento em empreendedorismo e inovação. 

Acompanhe agora os melhores momentos desta edição da série “Conversa de Inovação”:

Rodrigo Guerra: Marcela, quero começar nosso papo falando sobre macroeconomia e expectativas para 2021. Então, me diga qual é a sua análise para o cenário econômico mundial a partir da eleição do Joe Biden nos Estados Unidos (EUA)?

Marcela Rocha: Eu tenho percebido um cenário internacional construtivo para 2021. Claro, pelo lado da saúde, tudo ainda é desafiador pois, infelizmente, em muitos lugares a pandemia não está controlada. Mas, ao avaliar o pano de fundo para o crescimento global, os determinantes são favoráveis, principalmente por causa da vacinação, que é o grande fator que traz otimismo.. Mas há também a vitória do Biden, como você mencionou, que traz um desfecho positivo para os mercados porque tira uma grande incerteza a respeito da guerra comercial. A China estava em embate direto com os EUA já antes da pandemia, e não era uma guerra tranquila. Haviam ameaças, tweets e tarifas que tinham peso no comércio global, afetando economias como a brasileira por colocar as commodities para baixo. Com a vitória do Biden, ele deve buscar parceiros comerciais e órgãos multilaterais para pressionar a China por mais transparência, mudando a lógica da guerra comercial de forma positiva.

Rodrigo: Além desse, digamos, “controle” da guerra comercial entre EUA e China, o que mais ajudará o crescimento econômico mundial nesse período?

Marcela: Será a disposição dos bancos centrais e dos governos de colocar estímulo nas economias. Em 2020, tivemos uma resposta política-econômica muito expressiva: taxas de juros a zero, bancos centrais expandindo balanço e governos colocando uma injeção de estímulo fiscal muito significativa. Essas medidas foram eficazes e ajudaram a retomada, pois não tivemos crise no setor financeiro, nem quebradeira de banco ou problema de crédito global. Enquanto aguardamos ansiosamente a vacinação, todos os governos mostram disposição em fazer mais estímulo e o Biden veio reforçar essa expectativa porque ele foi eleito com a promessa de aumentar o endividamento dos EUA – que já é alto – para ajudar a população neste momento de fragilidade e evitar o risco da economia desacelerar. Além disso, os bancos centrais jogaram os juros para perto de zero e têm sinalizado que vão tolerar uma inflação mais alta. O cenário é de uma recuperação econômica global sincronizada, com o PIB global crescendo mais de 5% em 2021  e a China crescendo mais de 8%. Em 2021, todos os países devem ter taxas de crescimento robustas e com juros ainda baixos.

Rodrigo: Isso também se aplica ao Brasil, na sua opinião?

Marcela: Para o Brasil sempre é um pouco mais desafiador. Em 2020, o país se saiu bem por conta da reforma da Previdência lá de 2019 e com as reformas do teto dos gastos, trabalhista e toda aquela agenda positiva anterior. Apesar de sermos um país com dívida alta e termos um histórico de inflação, toda a credibilidade da pauta de reformas fez com que pudéssemos atuar para evitar uma queda maior do PIB. A Selic foi para 2%, o Banco Central fez medidas de crédito – o principal foi fiscal – e  mesmo o Brasil ainda tendo uma dívida bruta alta, gastamos em 2020 mais de R$ 500 milhões para ajudar as empresas e, principalmente, as famílias. Essa ajuda foi muito eficaz em um cenário incerto, com uma alta taxa de desemprego e dificuldade de caixa para as empresas. Só que agora, em 2021, com a chegada da vacina, há a expectativa de retomada da responsabilidade fiscal. e  esse é o grande desafio do Brasil. Apesar de os estímulos fiscais não poderem mais ser prorrogados, com a expectativa da vacina e de melhora nos indicadores, podemos ter crescimento de até 3% esse ano. 

Rodrigo: E esse crescimento de 3% será sustentável?

Marcela: Para isso e, principalmente, para assegurar a credibilidade, a inflação controlada e os juros baixos, é preciso ter responsabilidade fiscal. Nosso processo de vacinação está mais tumultuado, com polarização política e ainda não há previsibilidade sobre quantas doses teremos nem quando elas estarão disponíveis, e tudo isso aumenta a pressão por gastos, com muitos políticos querendo voltar a fazer auxílio emergencial e ajudar empresas e, consequentemente, não cumprir o teto dos gastos.

Rodrigo: E dá para enfrentar os próximos meses cumprindo a responsabilidade fiscal?

Marcela: Sim, usando medidas dentro do orçamento, como remanejar gastos e antecipar benefícios para a população, como o 13º ou o FGTS. A expectativa é que o compromisso fiscal seja mantido e respeitado; essa é a premissa mais importante para o cenário de otimismo em relação ao crescimento .

Rodrigo: Há também uma grande ansiedade em relação à taxa de juros…

 Marcela: A taxa de juros em 2020 foi para o menor patamar da história, a 2%, e, apesar de termos uma recuperação gradual, o Banco Central sinalizou claramente que vai antecipar o aumento dessa taxa. Eu concordo com isso porque a inflação está em um patamar mais desconfortável, pois, apesar do desemprego alto e da atividade fraca, houve uma depreciação cambial de 30% em 2020 por conta dessas incertezas fiscais e esses preços estão contaminando o nosso número de inflação, com alta de alimentos, de produtos industriais e os IGPs rodando 23%… A expectativa é que o fundamento da retomada lenta vai prevalecer e a inflação vai ficar na meta, mas como estamos em um período de incertezas, com taxa de câmbio depreciada e pressionados por essa questão fiscal, eu acho que é muito prudente o banco central não querer que a inflação saia de controle e ele próprio antecipe essa alta nos juros. Portanto, mesmo com um cenário positivo, os juros em 2021 vão subir a partir de maio, saindo de 2% e chegando em 4,5% no final deste ano. 

Rodrigo: Apesar dessa perspectiva de uma gradual retomada da taxa de juros, ela ainda se mantém em patamares muito baixos frente ao histórico brasileiro. Você e a Claritas têm uma expectativa se isso está levando os investidores a tomar mais riscos? Acham que  há um cenário favorável para se formar uma cultura no Brasil que promova o empreendedorismo e a inovação?

Marcela: Meu alerta é exatamente o que você disse: a taxa de juros vai subir, mas ainda a patamares baixos, e isso acontece por uma boa razão: para o Banco Central evitar que a inflação assuste. Antes dessa crise, a taxa média da Selic era de 13% e estamos prevendo que ela subirá para 4,5%, ou seja, para um patamar baixo, mas estimulativo. Mas o padrão do investidor brasileiro vai ter que mudar, pois aqueles retornos mensais expressivos com pouco risco já não existem mais. E não estou falando só do novo investidor que sai da poupança e do CDB, e começa a comprar mais fundos e ações. Falo das taxas de retorno dos investimentos brasileiros. Com 4,5% de Selic as empresas vão buscar soluções, por exemplo, indo para a Bolsa de Valores se financiar com uma taxa de juros mais barata. Haverá também espaço para novos investimentos e startups, capital aberto [Venture Capital], enfim, tudo o que for relacionado a risco e negócios mais diversificados por conta dos juros mais atrativos e da busca por  investidores. Tudo isso aumenta a possibilidade de empreendedorismo em setores que nunca imaginamos, trazendo muita diversificação e inovação. 

Rodrigo: E há também uma tendência de investir fora do País?

Marcela: Sim, essa é outra tendência que ficou reforçada, o que também faz parte de uma maior tomada de riscos reforçada pela pandemia. Mas existe diferenciação entre os países, claro, pois cada um tem a sua história, suas oportunidades, setores mais fortes. Por exemplo, nos EUA a bolsa subiu, mas o setor de tecnologia cresceu 30% e vemos empresas nessa área subindo muito mais. Então, o investidor brasileiro percebeu que com  juros baixos era preciso ter diversificação e começou a olhar para fora do País  para complementar seu portfólio.

Rodrigo: Outra área que os investidores estão interessados é a das chamadas empresas ESG, que buscam melhores práticas ambientais, sociais e de governança em seus negócios. Você acredita que isso aconteceria naturalmente ou esse aumento na procura pode ser um resultado da pandemia e da mudança de mentalidade mundial?

Marcela: No Brasil essa é uma questão que foi acelerada pela pandemia. Mas lá fora, passos importantes já eram dados antes, como a criação de métricas para entender quais eram os valores de ESG dentro de cada empresa. Em alguns países já havia fundos de investimentos de empresas que já tinham valor agregado justamente por cumprir essas métricas do ESG.  No Brasil esse processo era mais lento, mas aí chegou o choque da Selic baixa e já veio a mudança de investimentos e a busca por mais risco – e com ela, o olhar para o ESG. Mas ESG não é só governança nem só cuidar da empresa e entender como ela toma decisões. ESG é pensar no meio ambiente e na sociedade, por exemplo, nas condições da comunidade onde vivemos, na desigualdade de gênero, nas questões de raça e de renda. Na pandemia tudo isso ficou muito mais latente e já temos fundos brasileiros que aplicam em empresas que seguem esses conceitos, embora, infelizmente, ainda não temos as métricas bem coordenadas.

Rodrigo: Marcela, e para finalizar nossa conversa, quero fazer uma pergunta sobre sua experiência pessoal. Como é para você ser uma mulher atuando no mercado financeiro? 

Marcela: Vai fazer 14 anos que eu trabalho no mercado financeiro e, nessa janela curta, eu já percebi que a participação das mulheres cresceu. Sabemos que o mercado financeiro é um ambiente muito masculino, fechado e por vezes ríspido para as mulheres, mas ao longo dos últimos anos eu vejo o aumento da participação feminina que, cada vez mais, tem condição de atuar sem precisar perder suas características para se adequar ao ambiente. Hoje há mais respeito à individualidade e à voz das mulheres, mas eu penso que ainda é preciso quebrar duas barreiras importantes. A primeira é das próprias mulheres, que devem entender que o mercado financeiro não é esse bicho de sete cabeças. E a segunda é que o próprio mercado precisa fazer um esforço para atrair mais mulheres. Precisamos mostrar para as mulheres que o ambiente é desafiador, mas não apenas pelo fato de elas serem mulheres, mas simplesmente porque é volátil e cheio de trocas, mas que elas podem fazer a diferença pela forma de pensarem e organizarem as ideias.

*Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

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