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“O Brasil precisa de um ecossistema de inovação na Saúde”, garante Ana Carolina Cândido

Publicado em: 26/11/2020

“O Brasil precisa de um ecossistema de inovação na Saúde”, garante Ana Carolina Cândido

COO da startup InsullinAPP e especialista em inovação da Eretz.bio destaca a promoção da diversidade nas organizações como parte desse caminho de transformação

Por Rodrigo Guerra* 

Ana Carolina Cândido é uma jovem inspiradora. COO da startup InsullinAPP, cuja solução faz o monitoramento de pacientes com diabetes à beira-leito, e envolvida com o ecossistema de healthtechs (startups da Saúde) desde que descobriu o empreendedorismo, ela tem se dedicado com afinco à incentivar a inovação no Brasil. O objetivo é tirar avanços tecnológicos e científicos das prateleiras empoeiradas da academia e aplicá-los em soluções que resolvam problemas no mundo real.

Com formação em marketing, Ana ingressou na Saúde com a ideia de ficar “até aparecer algo na minha área”. Mas se encantou com o setor e com a possibilidade de trazer benefícios à sociedade por meio dele. Parte do caminho para esse objetivo está na posição que acaba de assumir na Eretz.bio, incubadora de startups do Hospital Israelita Albert Einstein.

Tive um papo muito bacana com a Ana sobre inovação, juventude e diversidade. Ela acredita que o racismo estrutural é um problema presente nas organizações de Saúde – e já foi, inclusive, vítima dele – e que são necessárias mais iniciativas de inclusão, além de uma mudança de cultura que pare de “achar que incentivar a população pobre e preta é dar esmola”.

Leia os melhores momentos da nossa conversa:

 Rodrigo Guerra: Ana, conte um pouco da sua trajetória. Como começou a sua carreira de empreendedora digital?

Ana Carolina Cândido: Atuo na Saúde desde 2010. Sou de Lins, no interior de São Paulo, e formada em marketing. Vim para a capital para trabalhar, e comecei no departamento administrativo do Hospital das Clínicas, no Lucy Montoro [Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo –  IMREA HC FMUSP]. Minha ideia era ficar ali até aparecer algo na minha área. Mas comecei a ver um propósito muito grande na Saúde. Aí fui para a endoscopia, e comecei a trabalhar com pesquisa clínica. E percebi que muitas pesquisas desenvolvidas na academia têm o objetivo de publicação, mas os resultados práticos não chegam à população. Por mais que eu gostasse do que fazia, minha base é de negócios, e somente publicar não fazia sentido. Foi então que fiz um curso de de pesquisa clínica que abordou o empreendedorismo e comecei a entender o que era.

 Rodrigo: Foi aí que você entrou no mundo das startups?

Ana: Em 2016 eu nem sabia o que era startup. Comecei a participar de eventos de empreendedorismo. No Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] participei de um programa e mergulhei no ecossistema e na necessidade de criar inovação. Entrei para a ZeroOnze, uma comunidade de startups. Para fomentar o ecossistema de inovação em Saúde, ajudei a fazer eventos como o Startup Weekend e o São Paulo Tech Week – que acontece todo ano e do qual sou curadora de Saúde. Participei das iniciativas como voluntária, já que precisamos de um ecossistema para gerar inovação.

Rodrigo: E quando surgiu a InsulinAPP, a startup que você cocriou?

Ana: Em 2018 participei de um programa no Sebrae para criar uma aceleradora que transportasse projetos da universidade para o mercado. Eu queria criar essa aceleradora sozinha, mas no momento da validação, percebi que não dava. Continuei fazendo mentorias para, então, desenvolver um produto que fizesse sentido. Em paralelo a isso, conheci dois médicos que estavam participando de outro programa no Sebrae e não tinham um braço de negócios. Eu tinha esse perfil e estava sem um produto. Meu mentor nos apresentou para ver se rolava um fit. Nos conhecemos, deu certo, e entrei como sócia da InsulinApp. 

Rodrigo: Como o aplicativo funciona?

Ana: É uma plataforma de controle glicêmico hospitalar à beira-leito, para diabéticos ou não. A equipe de enfermagem coleta informações e as lança no app. Estamos estudando formas de integrar com bombas de insulina e outros acessórios, mas hoje é basicamente um software. É uma solução de base científica que nasceu da dor de um grupo de médicos que perceberam a dificuldade de fazer esse controle de forma mais assertiva, e viram que havia potencial para um negócio. Estamos no início da operação comercial neste período de pandemia. Um dos fatores críticos da COVID-19 é que a diabetes e a hiperglicemia hospitalar são um problema para diabéticos ou não, e fazer esse controle era muito importante. Aprovamos na semana passada um estudo retrospectivo comparando os resultados de pacientes de UTI que usaram a solução frente aos que não usaram. Vamos apresentar essas conclusões nos próximos meses.

Rodrigo: Você acabou de assumir uma posição na Eretz.bio, a incubadora de startups do Hospital Israelita Albert Einstein. Qual seu objetivo por lá?

Ana: O Einstein tem a Eretz.bio desde 2017. Entrei para um projeto que já existe. Nesse período de pandemia, tivemos uma expansão muito grande, e já são 80 startups incubadas. Por isso estamos aumentando o time. O Einstein tem robustez, é um hospital muito grande. Se alguém tem potencial para fazer a inovação em Saúde acontecer no Brasil e tem conhecimento, profissionais e dinheiro para isso, porque também é preciso investimento, é o Einstein. 

Rodrigo: Ana, você acha que é necessário ser jovem para inovar?

Ana: Não. Não acho que idade tenha a ver com isso. É preciso duas características: ser uma pessoa inquieta, inconformada, e isso independe da idade. Não aceitar as coisas como são colocadas é muito importante. E a questão da resiliência também. Quem é muito inquieto ouve muitos “nãos”. Às vezes, no ambiente em que se está, as pessoas não estão prontas para mudanças. Há esse trabalho de explicar por que inovação é importante, e por que aquilo que sempre funcionou precisa de tecnologias novas. É preciso explicar para o médico que ele tem que parar para olhar para tecnologias que antes não considerava. 

Rodrigo: Isso não é fácil no setor de Saúde, que tem uma certa tendência ser mais conservador.

Ana: Eu entendo a resistência que existe por parte dos profissionais. Quando se fala em inovação, estamos falando em testar, pivotar, experimentar. E falamos muito de errar, e errar rápido, na cultura de inovação. Mas o profissional de Saúde é ensinado a não falhar. Quando você fala para ele pegar uma coisa que funciona e testar algo que ele acha que pode colocar em risco a vida de uma ou muitas pessoas, é óbvio que vai haver resistência. Um dos desafios é começar a introduzir a inovação na formação desse profissional. Todos, não só o médico. 

Rodrigo: Você é uma rara mulher negra em posição de liderança no ambiente de inovação brasileiro. Como ampliar a diversidade nesse contexto?

Ana: A diversidade é importante sempre. Quando se fala de inovação e de pensar diferente, não tem como não falar de diversidade. Se só homens brancos de faculdades e cursos específicos participam, que é a realidade do cenário de healthtechs, teremos soluções que atendem só determinados públicos. A falta de diversidade e representatividade já existe na inovação de modo geral, mas na Saúde é mais intensa. Não tenho números exatos, mas é só fazer o teste do pescoço: se cinco pessoas negras estão em um evento de Saúde no meio de mil, são muitas. Mas as empresas estão olhando mais para essa questão, nem tanto por responsabilidade, mas sim porque [a falta de diversidade] traz prejuízos financeiros também. É questão de o público exigir, embora essa pressão externa ainda seja muito pequena na Saúde, o mercado é muito elitista e celetista. 

Rodrigo: O que falta para que mais iniciativas de diversidade e representativa surjam nas empresas, principalmente na Saúde?

Ana: As pessoas precisam olhar para o país e o mundo em que vivem. Precisam entender que existem outras pessoas além da população da raça a que pertencem. A falta de representatividade nos times delas faz com que não enxerguem. Um caminho é o que a Black Rocks [hub de inovação voltado para a população negra] vem fazendo, de incentivar empreendedores e lideranças negras. Falando de mulheres, temos várias iniciativas de incentivo para que elas se vejam como protagonistas. E existe o desafio da conscientização das empresas, você não consegue mudar nada se a empresa não quiser. Quando falamos do ecossistema de Saúde, que inclui profissionais médicos que pertencem a uma parte da elite da sociedade e que não olham para a realidade das periferias, é preciso que esses profissionais se conscientizem.

Rodrigo: Você enfrentou dificuldades por conta do seu gênero e raça?

Ana: Sim. O racismo estrutural infelizmente é uma realidade. Eu gostaria de dizer que não, não existe, mas é muito real. Primeiro há o estranhamento das pessoas quando veem um negro em cargo de liderança. Você conversa por e-mail e a pessoa faz uma cara esquisita quando te vê pessoalmente. A gente percebe essas coisas. Também já senti principalmente a questão não do silenciamento, mas da tentativa. Eu nunca parava de falar, não importava o quanto tentassem, mas é sempre preciso se provar. O tempo todo as pessoas tentam invalidar o que você está dizendo.

 Rodrigo: Que mensagem você deixaria para jovens negras como você que buscam um lugar na inovação?

Ana: Para as mulheres negras só posso falar que elas são incríveis. Só elas sabem o que passam. Elas têm muita força, e tem hora que precisa ter paciência. E, mais importante que isso, precisamos começar a entender o valor que temos. Às vezes deixamos de crescer por causa do preconceito. Temos profissionais periféricos com muito potencial e muita garra, e precisamos olhar para isso de outra forma. Se parássemos de achar que incentivar a população pobre e preta é dar esmola, se pensássemos um pouco mais na potência desses jovens… Eu quero dizer às jovens negras que continuem tendo força, e para as demais pessoas, que olhem para elas de outra forma.

* Rodrigo Guerra é especialista em finanças e inovação em Saúde. Atua como superintendente executivo da Central Nacional Unimed, organização responsável por administrar todos os contratos de abrangência nacional do Sistema Unimed.

Esta entrevista foi produzida com o apoio do jornalista Marcelo Vieira.

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